Relato do meu parto, nascimento de minha filha Ana Clara, em casa.
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quarta-feira, 13 de junho de 2012Desde a gestação de nosso primeiro filho, Mateus, tínhamos o desejo de um parto domiciliar,
mas não encontramos ninguém que nos auxiliasse nesse sonho, então, optamos por recebê-lo
na maternidade do HU, que defendia o parto humanizado. Começamos a freqüentar a
maternidade nos encontros de gestantes que eram oferecidos a fim de conhecer a proposta de
humanização do parto e instalações da maternidade e lá, conhecemos a enfermeira Vânia.
Mesmo sendo lá o parto do Mateus, contamos com o apoio da Vânia, que deu um “conselho
milagroso”, permitindo que meu filho nascesse naturalmente. Nem poderia imaginar que 4
anos depois essa mesma enfermeira tão querida estaria em minha casa para me auxiliar a
receber minha filha.
Já há algum tempo, tínhamos o desejo de aumentar nossa família, fazendo dos três, quatro.
Porém, muita coisa vinha acontecendo. Primeiro, os projetos pessoais que não podiam ser
adiados, e depois, um quadro clínico de PTI (Púrpura) no nosso filho Mateus, que nos tirou do
eixo no início do ano de 2011... Paralelo a isso, eu conhecia a Gabi Zanella, que acabava de
receber a linda Estela, em um sonhado parto domiciliar! Saber do parto da Estelinha encheu
meus olhos de lágrimas, o coração de esperança, e foi quando o desejo de ter nosso segundo
filho aumentou ainda mais! Foi nessa época que descobrimos que a enfermeira Vânia atendia
partos domiciliares através do Hanami, equipe que também atendeu nossa amiga Gabriela.
Nosso Mateuzinho cresceu, completou seus 4 aninhos de idade, e queria agora ser “irmão
mais velho”, um verdadeiro prêmio e responsabilidade para ele! Então reservamos o mês de
junho para encomendarmos nosso bebê, já que o Léo estava de férias. Mas, não foi em junho
que a Clarinha começou a habitar dentro de mim. Em julho, em meio a novos problemas nos
questionávamos novamente se realmente seria o momento de um novo filho, mas, foi no dia
do aniversário da minha mãe, que fizemos o teste de gravidez, e trêmulos, vimos aqueles
lindos dois risquinhos que mudaram completamente a nossa vida, pela segunda vez!
Daí pra frente foi a construção tijolo a tijolo desse novo sonho! A partir desse positivo,
resolvemos já entender melhor como funcionava o parto domiciliar, já que sabíamos que
dessa vez era possível, não queríamos deixar passar! Fomos conversando com a Gabi, que nos
apresentou a várias outras pessoas queridas, e se ofereceu para “doular” em nosso parto.
Fomos nos rodeando de boas energias e de pessoas que nos apoiavam nessa nossa decisão.
Também através da Gabi conhecemos a Cris, que se ofereceu para ser doula no parto, caso a
Gabi não pudesse no dia. Então, em setembro, com dois meses de gestação, fomos ao
consultão do Hanami, em que esclarecemos muitas de nossas dúvidas e aumentamos ainda
mais nosso desejo de ter nosso bebê em casa. Lá também conhecemos a enfermeira Joyce,
com quem nos identificamos muito e desde então, queríamos ela no nosso parto.
Os meses passaram, e aumentou uma corrente super positiva pra que tudo acontecesse como
desejávamos: chá de parto, “banca quase de graça” no Bazar Coisas de Mãe, tudo realizado em
prol do nascimento da Ana Clara acontecer em casa. Tudo feito com muito carinho por pessoas
queridas que sabem o valor que isso tudo tem. Além disso, fomos negociando os valores com a
hanamiga Joyce, que sempre esteve muito disposta a nos ajudar para que esse sonho fosse
viável.
Depois de tanta energia boa, com 36 semanas finalmente tivemos nossa primeira consulta
com as enfermeiras do Hanami. Nesse primeiro encontro, recebemos em nossa casa as
queridíssimas Joyce e Juliana. Foi um encontro lindo á luz de velas (já que faltou luz), o que nos
fez sentir mais do que nunca a presença de nossa filha entre nós, entendo como sendo o início
de seu nascimento. Mateus segurou o sonar na “barriga-casa” da Aninha e, juntos, sentimos
seu coraçãozinho bater. Após ele beijar minha barriga, o coração dela acelerou ainda mais,
como de costume. Além disso, nesse dia sentimos sua cabecinha ainda dentro de meu ventre,
o que me emocionou muito. Depois dessa linda consulta, fomos nos preparando física e
emocionalmente para o grande encontro, com caminhadas, massagem perineal, “sling de
barriga” e muito amor! Tudo como recomendado pelas queridas hanamigas.
A segunda consulta foi com a enfermeira Renata que nos esclareceu muito sobre os
pródromos que eu já estava sentindo há algumas madrugadas. E a terceira (e última) consulta,
estávamos na 38ª semana de gestação, foi com a enfermeira Vânia. Ela veio pela primeira vez
em nossa casa, para soltar as amarras e fazer nossa linda filha se sentir bem vinda, então só
esperávamos que ela estivesse preparada, pois depois dessa consulta, nós nos sentimos mais
que prontos para seu parto. Foi uma consulta que nos fez abrir as portas definitivamente.
Nessa consulta, a Gabi também esteve presente, para fechar ainda mais essa fase e aumentar
o sentimento de espera. Lembro-me de olhar para o Léo depois da Vânia ir embora e dizer,
“chegou a hora!”.
Então, no dia 22, uma quinta feira com mudança de lua, eu estava muito ansiosa, afinal já
estava vivenciando os pródromos há algum tempo, sempre nas madrugadas, e com a mudança
de lua, ela poderia chegar. E, nessa madrugada, depois de uma dose de ocitocina natural,
começaram dores lombares com forte pressão na pelve, mais intensas que das últimas
madrugadas. Ligamos para a Vânia, que recomendou que eu tomasse um banho quente e
esperasse para ver o que aconteceria. Se fosse TP, as dores se intensificariam, se não fosse,
passariam. Enquanto isso, A Renata chegou, as 2h da manhã, me examinou e disse que ainda
não era a hora, e que eu estava com 2 ou 3cm de dilatação, mas poderia levar alguns dias
ainda. Depois do banho, as dores passaram e fomos dormir. E, denovo, nossa pequena só
queria ensaiar!
Nos dias que se seguiram, continuei a sentir a mesma pressão na pelve, que às vezes se
intensificava, mas como já tínhamos nos enganado, esperávamos por algo mais ritmado para
ligar para as hanamigas, e esperamos tudo evoluir naturalmente.
No sábado, dia 24 de março, começamos a manhã em nossa casa, embalados pela espera. Eu e
Mateus, cantamos e massageamos muito nossa pequena, ainda em meu ventre, cantávamos
as boas vindas e que estávamos prontos para recebê-la, foi um momento lindo, com meus dois
filhos, ainda antes de nos conhecermos. Cantávamos, e ela mexia, como querendo dizer que
também estava ansiosa para nos conhecer. Passamos o dia todo nesse mundo mágico,
sentindo nossos corações se transformando, sentindo a presença de nossa filha, mais do que
nunca, um clima de paz infinita se espalhava por onde andávamos. Na praia, uma brisa suave
nos tocava e anunciava uma nova vida! Tínhamos certeza que ela nasceria naquele fim de
semana.
Então, nesse clima de amor, a ocitocina tomou conta de nós, e nossa madrugada foi de muito
ensaio, mais intenso do que nunca, não dormimos a noite inteira com contrações muito
espaçadas, mas muita pressão pélvica. Tomei um banho quente, como as hanamigas
ensinaram, e a dor se intensificou, não parecia TP, e sim, mais pródromos. Então, resolvemos
não ligar para ninguém, e esperar a evolução até de manhã. Passei a madrugada na bola suíça.
E, às 6h da manhã do dia 25 de março, ligamos para a Joyce, que recomendou caminharmos
para vermos a evolução, já que as contrações não eram ritmadas e eram quase ausentes, e
dormir depois, ela também iria dormir para estar preparada. Caminhamos muito, e as dores
passaram, então fui dormir, e quando acordei ligamos para a Joyce, que não atendeu, pois
estava dormindo. Fomos almoçar fora, e ela nos ligou, dizendo que estaria esperando qualquer
novidade. Como era sua folga, e queríamos muito que ela estivesse presente, ficamos um
pouco tristes com a demora da evolução do parto. Ao longo da tarde, senti algumas
contrações e dores dispersas e em momentos diferentes, o que nos fez pensar que não seria
nesse dia que teríamos nosso tão esperado encontro, mas tudo isso era meu corpo se
preparando e ela se ajeitando para sua estréia.
Essa espera, já há alguns dias intensificada, me angustiava, pois havia evolução, e logo tudo
parava. Então, por volta das 21h depois de uma conversa tranqüilizante com o Léo depois de
colocarmos o Mateus para dormir, resolvemos aceitar que ainda não estava na hora, e que
tudo isso deveria ter um propósito. Lembro bem dele me falando “Rê, teu corpo está se
preparando amor, quando ela vier, já vai estar tudo preparado, e por isso vai ser ainda mais
tranqüilo”. E começava ele a atuar como meu “doulo”, marido, pai, parteiro...
Então, liguei o computador afim de me distrair, e senti a primeira contração seguida de dor,
uma dor bem leve. Fiquei ansiosa, mas, como tinha aceitado ter paciência, resolvi ignorar. Fui
conversando com a Gabi pela internet, contando os acontecimentos do dia, quando, com
intervalo de 10 minutos, sentia segunda contração, ainda muito leve, comecei a rir de
felicidade, mas não quis me animar muito de novo. Me despedi da Gabi, dizendo para ela se
preparar que talvez chamasse ela em breve, e como estava sem dormir há muito tempo, iria
tomar banho, comer alguma coisa pra dormir. Eu imaginava mais uma longa madrugada se
aproximando, mas, de novo eu estava enganada.
Tomei banho, e às 22:15h enquanto começava a jantar, a bolsa estourou. Nesse momento, nos
olhamos, e foi só alegria! Fui para o chuveiro, a princípio para me lavar, enquanto o Léo
começava a se transformar em super herói, enchendo a piscina de ar, forrando, ligando o som,
telefonando para as hanamigas, para a Gabi, e para a Déia, nossa grande amiga que também
estaria presente. Ele achava cedo pra ligar, mas eu estava sentindo que era melhor ligar logo, e
ele ligou só para me tranqüilizar.
Ainda no chuveiro, senti uma contração mais forte, e então, pedi para o Léo pegar a bola suíça.
Fiquei lá, sentada na bola, debaixo do chuveiro, com as contrações se intensificando
rapidamente. O Léo aparecia, me abraçava, dava carinho, sorria, falava algo positivo e sumia
pra preparar as coisas. Eu chamava novamente, e tudo se repetia, ele me atendia e preparava
tudo. Eu andava do chuveiro à cama, onde o Léo havia preparado um amontoado de edredons,
mas naquele momento, nenhuma posição me agradava, e as contrações estavam muito fortes.
Voltei ao chuveiro, e de novo chamei por ele, que desta vez me abraçou e me joguei por cima
dele, instintivamente, a fim de ficar de quatro. Foi então que percebi que essa posição me
favoreceria, e num (breve) intervalo entre as contrações fui novamente até a cama, onde
fiquei em posição genupeitoral (de quatro, abraçada nos edredons). A essa altura, as
contrações estavam muito próximas e intensas, eu sentia que em breve ela estaria em meus
braços. Movimentava-me para frente e para trás, naquela posição gemendo alto, e nos
intervalos entre as contrações só tinha tempo de gritar “Léo...” e começava de novo. Lembro
do Léo aparecer pálido, fazer massagem no fim da minha coluna, perto do sacro (o que aliviava
muito a dor), falar que ela ainda nasceria no domingo, me enchendo de força e alegria. E ele
saía pra ligar pras Hanamigas, ou pra Déia e apressá-las. Em um momento, ouvi-o na porta de
casa falando com a Joyce ao telefone __“ oi, querida, tá perto? Então, engata a sexta, que o
bicho tá pegando! É, ela tá querendo nascer! rsrsrsr”.
Enquanto isso, eu sozinha no quarto, estreava minha primeira dança com minha filha, a sentia
em cada movimento, a sentia vindo, e ela dizia pra eu trazê-la, pra eu pegá-la, dar colo. Sentia
uma vontade incontrolável de fazer a força que ela precisava, me sentia pegando ela pela mão
e trazendo.
Comecei a chamar pelo Léo para que ele viesse pegá-la, ele largou a piscina com a mangueira
de água e veio. Porém, para quem estava do lado de fora da “dança” não dava pra perceber
que ela estava tão próxima. Me dava apoio, e ligava pra Déia pedindo socorro, querendo saber
onde ela estava, porque ele não queria mais me deixar sozinha. Ela estava perto, mas nossa
filha estava ainda mais, e eu fazia força, sentia ela descendo e gritava “segura ela, Léo, ela quer
sair agooooooraaa”. A Déia acelerou, e veio orando pelo nosso momento no caminho, mais
tarde ela sentiria um forte e feliz arrepio, que anunciaria a chegada de Ana Clara. Enquanto ela
orava, as hanamigas chegam às 23:05h.
A Joyce veio me dar apoio, e pediu delicadamente pra fazer um toque, meio receosa
concordei, mas disse que ela já estava nascendo e a Joyce, antes do toque, disse que faltava
muito, portanto, eu deveria ficar calma. Então, ela fez o toque e gritou pela Vânia, e disse que
eu estava certa. Tentando me ajeitar, instintivamente coloquei a mão no períneo e senti seus
cabelinhos entre minhas pernas, foi nesse momento que afundei na “partolândia”. Nesse
momento, lembro da Vânia perguntar se eu gostaria de ir até a piscina, eu nem me imaginava
saindo do lugar, mas elas falaram que se eu quisesse, elas me ajudariam. Então concordei, e fui
apoiada pelas hanamigas até a banheira. Quando entrei na banheira, me senti como somente
permitindo que ela nascesse, não lembro de fazer força, lembro de pensar “bem vinda, minha
filha”, e ela veio direto para os braços do pai, que pariu juntamente comigo, agiu também com
instinto de pai que dá a vida, vendo nossa filha com as duas circulares de cordão no pescoço,
naturalmente girou seu corpo. Enquanto isso, eu ofegante olhava para a Joyce, que estava com
a expressão mais segura e todos nós nos comunicamos profundamente, somente com olhares
e todos nos entendemos, sem nenhuma palavra. Depois de desenrolar o cordão o Léo me
entregou nossa filha em meu colo, linda que calmamente me olhava profundamente como
dizendo que me amava e que estava feliz em me conhecer! Momento inesquecível e
indescritível para qualquer mãe! Eram 23:15h do dia 25 de março de 2012, e tínhamos nos
encontrado pela primeira vez.
Chamamos o Mateus, que ainda dormia profundamente, eufórico, ele tirou a roupa e veio
conhecer sua irmãzinha. Nesse momento mágico, ele foi engolido por aquele novo e intenso
amor juntamente conosco, queria participar assim como nós, aquecê-la com a água quentinha
enquanto ela mamava. E assim, ela mamou por 40 minutos, quando então saímos da banheira.
O cordão já havia parado de pulsar a algum tempo quando tão somente o super pai e o super
irmão, juntamente, o cortaram. Separando-a assim, da placenta e finalizando sua missão de
“primeira mãe”, e me entregando de fato minha tão sonhada filha.
Assim, nasceu Ana Clara, nossa filha sonhada,com 2,830kg e 48,5cm de um lindo e rápido parto natural, com apenas
uma hora de trabalho de parto, porém com muitos pródromos, sem doula devido à rapidez do
parto, sem laceração, domiciliar, na água, trazendo sonhos à realidade e ainda mais amor à
nossa família.
